domingo, 12 de julho de 2009

MARCHA RÉ

Tinha três anos, provavelmente jardim da infância, nem sabia do que se tratava, mas ficava sempre com ela, era minha melhor amiga, quando se é criança e não compreende bem as coisas tudo é puro é natural e sem maldade, era assim uma amizade de criança, da escola ou creche pra casa e depois que estávamos em casa era o dia inteiro, eu na casa dela ou ela na minha, afinal morávamos no mesmo quarteirão.
Mas o tempo passou, e as coisas de criança também passam, não a via mais como antes e ela cresceu e então eu mudei de cidade e não nos vimos mais por uns bons tempos, esse reencontro só viria a acontecer dez anos depois e nós dois já éramos , “grandinhos”, adolescentes , e depois já buscávamos coisas diferentes, eu era videogame e bola na rua , ela não, já era uma mulher adolescente mesmo e como era de ser já não podia ser mais minha “amiga”, ela já era mais madura, que era fato mesmo.
Antes desse reencontro, como disse acima, mudei de cidade, de escola, já com nove anos, acontecia novamente uma simpatia por outra pessoa, o nome dela era estranho, não que o meu seja tão normal, mas para uma criança de nove anos, os nomes normais são aqueles de histórias infantis, e o dela não tinha nada de infantil, mas aconteceu que eu não era o menino mais bonitinho, nem o mais simpático, de verdade era o mais educado, como sempre, tem coisas que não mudam nunca, continuo educado e cortês com as pessoas, principalmente com as mulheres, que é o correto, mas ela nem olhava pra mim, as meninas nessa idade já começam a formar seus grupinhos e a olhar para os meninos mais velhos, normal, fase que todos nós passamos, chorei como qualquer criança, afinal estava perto de descobrir um sentimento que não sabia ainda qual era.
Foi então que na mesma época mas um ano após e com a saída da menina de nome “estranho” da escola, que descobri o que era esse sentimento, outra pessoa, outra menina, lembro do nome dela até hoje, lembro também de ser o único a cair na piscina da casa dela em sua festa de aniversário, que situação terrível, mas ela como a menina do nome estranho também olhava para os mais velhos, e namorou um deles, nossa foi aí neste exato momento que senti algo estranho comigo, uma dor, que não era física, algo novo, totalmente estranho, machucava demais, só iria entender mais tarde, bem mais tarde que essa dor podia ser pior, bem pior, aprendizado que se fosse possível não iria querer em momento algum.
Mudei de escola, voltei pra capital, gostei de uma outra menina, ela era totalmente diferente, era mais velha do que eu, mais alta, e mais comunicativa, falava demais e como era normal só olhava para os mais velhos, queria ficar velho logo, quem sabe passavam a olhar pra mim, não aconteceu isso, pois todas as vezes que olharam pra mim, procuravam um amigo, alguém que as escutaria e as confortassem, sempre fui um bom ouvinte e um bom amigo, elas sempre podiam contar comigo e contavam.
Outra mudança escolar, normal, afinal como filho de pais separados essas mudanças passaram a fazer parte da rotina, mas já estava mais velho, quase um adolescente, já era um homenzinho, e começava a olhar para as meninas de outro jeito, digamos que um olhar mais diferenciado, e tinha uma japonesinha linda, que pra variar só me via como amigo, isso sempre acabava comigo, nós conversávamos bastante, mas eu era só o amigo, embora eu olhava pra ela diferente, ela era bonita mesmo, mas meu olhar já começava a ser mais libertino, creio que a palavra é essa.
Era só amizade mesmo.
Na escola na verdade, você passa por vários momentos de transição, de descoberta, percebe que o mundo tem modismos e que alguns valores não mudam e outros como mudam! Eu descobri que repetir o ano é péssimo.
No ano seguinte, ciente de que já tinha repetido o ano escolar, mesmo antes do fim das aulas, fui trabalhar, e neste ambiente desconhecido - trabalho -, conheci outra menina, bem mais velha, se me recordo , três anos, foi a primeira vez que uma “mulher” mais velha olhou pra mim, isso viria a acontecer mais tarde também, mas citarei mais à frente, eu era na época um adolescente gordinho e como todo gordinho eu era simpático e conversava bastante, com ela principalmente, foi a primeira “mulher” a dizer que eu era bonito, foi muito bom ter escutado, fez bem ao meu ego, puxa uma pessoa mais velha disse que eu era bonito!
Algumas coisas não dão pra esquecer, eu tinha treze anos, já faz um tempinho, mas não esqueço, eu era bonito! Gordinho, mas bonito! Mas também não aconteceu nada, infelizmente, ela era bonita e simpática, me tratava bem e principalmente me respeitava, dizia que eu era um ótimo amigo, tava cansando de ser sempre amigo, pensava: “quando vão olhar pra mim de forma diferente”, ser amigo toda hora tava começando a ser uma chatice.
Ano novo, escola nova, tudo novo, e paixão de adolescente nova também, porém aqui o aprendizado foi outro, aprendi o que era ser usado, a menina sabendo que eu gostava dela passou a se aproveitar de mim, não a culpo, pois eu pensei que ela gostasse de mim e depois iríamos namorar, coisa que não aconteceu, ainda bem, pois tive a sorte de perceber que ela estava me usando e deixei de ficar perto dela, fiz muito bem por sinal.
Até aqui, hoje mais velho, percebo que sempre fui carente, sempre quis ser amado, sempre me doei mais, sempre fui mais gentil, sempre fui mais humano, sempre.
Ano novo, paixão nova, outros aprendizados, como as adolescentes são complicadas, dizem que gostam de você, por outro lado gostam de outro também, sendo assim, uma indefinição acontece, e mais sentem-se poderosas ao extremo, ora, era mais de um que gostava dela, eu era um deles, o outro aprendizado neste caso e dar-se mais valor, isso eu aprendi, pois de certa forma eu a deixei de lado e ela percebeu, acontece que eu fiquei de lado também, mas valeu o aprendizado, fiquei sozinho pra variar.
Começava então no ano seguinte uma fase nova em minha vida, estava no segundo grau, me sentia o máximo, pensava que já era um adulto, ledo engano. O sentimento o qual trato desde o começo do texto, não tem relação nenhuma com idade, não mesmo. Escola nova, foi esse o caminho para conhecer uma nova pessoa, que sem saber era filha de um morador da rua, que eu nunca notara, ela era um ano mais velha do que eu, sinceramente falando, era muito mais madura do que eu e do que as outras da mesma idade, a educação dela era diferente, na verdade eu aqui talvez tenha sido minha primeira paixão mais madura, com olhar diferenciado, tenho certeza que ela nunca percebeu meus sentimentos, mas nunca deixou de ficar do meu lado como colega, uma ótima colega, foi um ano complicado, fiquei doente muito tempo e faltei muito, perdi o ano letivo.
Paixão a moda antiga do tipo que ainda manda flores, parece letra de canção conhecida, mas no ano seguinte, foi a primeira vez que enviei flores para alguém, foi quando percebi pela primeira vez que o romantismo parecia ter acabado, o que valia mesmo era o que você tinha por fora e não por dentro, essa é a nossa sociedade, aceitemos ou não! Aprendi cedo isso, de uma forma inesperada, mas eu sempre acreditei no sentimento puro e ingênuo, é eu tinha muito a aprender ainda. O fato é que não aconteceu nada e que foi mais uma paixão juvenil.
Alguns anos se passaram, não havia pessoas novas, só estudei e nada mais, me formei no segundo grau, consegui.
Quando já nem pensava ser capaz de me apaixonar novamente ou de alguém se interessar por mim, eis que do nada uma amiga mais velha, dez anos mais velha, se interessa por mim, paqueramos por um mês, foi meu primeiro namorinho, não posso falar outra coisa, pra mim foi o ápice, nunca tinha até então ficado com alguém, beijar então nem sabia o que era, só descobri com ela, aprendi a beijar e a ser sincero com meus sentimentos.Não durou muito, eu terminei, não me senti bem pois o que tinha por ela era uma grande amizade e não o sentimento verdadeiro que une duas pessoas, e não me permito estar com alguém só pra não ficar sozinho, nunca usaria uma pessoa pra isso, como nunca o fiz.
Faculdade, outra fase, outro aprendizado, aqui foi o momento de aprender a expressar o que sintia e estar preparado para escutar a outra pessoa a dizer uma palavra simples porém indesejável.
Não. Essa é a palavra.
Que palavra! Pequena, mas em alguns momentos tão forte, tão indesejada, tão verdadeira, tão necessária.
Mas nesse caso, eu aprendi a não misturar amizade com esse sentimento tão singelo e importante em nossa vida.
Daqui por diante uma nova fase começaria, dolorosa, valorosa, sofrível, mas necessária para meu amadurecimento como pessoa, como ser humano.
Havia a pouco tempo mudado de cidade e com isso mudei de vida, mudei de ares, o padrão de vida começava a mudar, meus valores continuavam os mesmos, sempre acreditei neles e sempre acreditarei.
Conheci uma pessoa, que julgava ser a pessoa da minha vida, a amei, me dediquei, fiz o que julguei ser correto, deixei família e casa, para ao lado dela estar, acreditei intensamente no sentimento que em minha alma estava impregnado, julgava ser a mulher da minha vida. Não era.
Me dediquei e amei pela primeira vez, nos entregamos de corpo e alma, vivemos cada instante intensamente, faço aqui sem medo ou receio a declaração de que ela foi a primeira mulher da minha vida e ela sabe disso, embora não acredite, pois eu era mais velho, porém com uma vivência ou experiência no que diz respeito a isso igual a zero. Estudei muito, literalmente falando, pra saber o que fazer e como fazer, não tive esse tipo de orientação em casa e os amigos não ajudam muito, já que eu gostava de ler, uni o útil ao agradável , foi o jeito. Mas o pior estava por vir, a condição financeira da minha família piorou e com isso o sentimento dela também começou a dar sinais de fraqueza, percebi que algo estava errado, a profissão que eu havia escolhido até então não obtive sucesso e isso também colaborou para o término da relação, o que mais machucou não foi o fim, mas como terminou, a mãe dela por telefone dizendo que ela não ficaria com alguém que não pudesse sustentá-la, nem quis falar comigo, quando escutei isso perdi totalmente o rumo de minha vida, não sabia mais o que pensar ou o que fazer, meus valores morais e éticos foram ao chão e pisoteados um a um, como diria um amigo: “foi um soco no estômago”, passei um bom tempo sem querer ver uma mulher e nem conversar com uma, decidi a ser uma pessoa só, tive muita raiva mesmo, durou quatro anos pra passar.
O tempo passou, não terminei a faculdade, mudei de área de estudo, fui estudar em outra cidade, neste novo local novas pessoas, novos valores, novos aprendizados, o melhor deles foi saber que esse sentimento que trato aqui neste texto não pode e nem deve ser possessivo e sim caridoso, me apaixonei novamente, amei de verdade, mas ela gostava de outro, expressei a ela o que sentia e ela em contra-partida foi sincera e disse que gostava de outro, dei então total força para ela , disse que a apoiaria e que ela devia lutar pela pessoa que gostava, foi uma atitude correta e válida da qual não me arrependo em momento algum. Gostar de alguém é querer ver essa pessoa feliz, não importando se ela está com você ou não, essa é a atitude correta, isso é querer bem de verdade.
Esse aprendizado foi extremamente valioso. Nós nos encontraríamos mais tarde.
O tempo passa, nós envelhecemos, criamos manias, vicissitudes, e construímos nossa personalidade e decidimos o que queremos, assim que as coisas são.
Com uma outra pessoa aprendi o que é o ciúme, ela era muito ciumenta, era perfeita, me desejou como eu era, se importava comigo, uma mulher digna, correta, justa, festiva (que continua sendo até hoje), mas muito ciumenta, com ela aprendi que uma relação pode ter fim, mas uma amizade não, somos amigos até hoje e sou grato por tudo que ela me ensinou e por ela ter feito e fazer parte da minha vida.
Ela aprendeu muito sobre ciúme, depois de um tempo teve um namorado que fez com ela o mesmo que fazia comigo, vivendo o mesmo, acabou aprendendo e percebendo o que eu reclamava, a vida é mesmo uma escola.
A vida continua, meus aprendizados também, conheci uma outra pessoa, o aprendizado aqui foi edificante, pois mostrei a mim mesmo que meus valores são corretos e que ser íntegro é uma qualidade imprescindível em qualquer situação ou momento.
Aqui, duas pessoas cientes do que queriam e do que buscavam numa relação, as duas com histórias de sofrimento, mentiras e outras coisas, no momento que decidiram dar um passo adiante numa relação adulta mais aprendizado foi obtido, ela ainda pensava no ex-companheiro, quando eu soube disso, decidi ir para o outro ambiente da casa, ela estranhou, mas eu disse que não era correto o passo que estávamos para dar, pois esse passo requer entrega por inteiro, não só o corpo, mas corpo e alma, nada fizemos então.Depois de um tempo nos encontramos , ela estava se relacionando com outra pessoa, eu estava a pé, ela de carro, fiquei feliz com a atitude dela, pois parou o carro, desceu, venho em minha direção e agradeceu minha atitude, dizendo que fui o único homem que a tratou com respeito e dignidade.
Mais um aprendizado conquistado, percebo cada vez mais que meus valores são corretos.
Passam-se anos e mais aprendizados ocorrem, neste que serei breve, o aprendizado é que a imaturidade sempre prejudica quem você diz querer bem. Ela mentiu pra mim e para outras pessoas, dizia uma coisa, mas era outra, não sabia o que de fato queria e o que sentia, muitas pessoas foram prejudicadas e uma amizade quase interrompida, foi um aprendizado duro de ser obtido, em vários setores da vida inclusive o religioso, que acredito ter sido o mais valioso aprendizado.
Religião, encontro de seu ser interior, essa busca é muito importante, não importa o tempo que dure essa busca, ela sempre será reveladora e compensadora, nessa busca encontrei uma pessoa que me ensinou muito, mais velha, mais madura, mais forte, batalhadora e que em alguns momentos não sabia dosar as palavras, era muito verdadeira, mas não da forma correta, impaciente também, mas que mulher fascinante, uma história linda de vida.
Com ela aprendi que vale a pena abrir mão de uma relação por algo maior em que se acredita, e as sensações são estranhas é fato, mas tanto pra ela como pra mim foram tomadas no momento certo. Ela sempre estará em meu coração.
Pois é o tempo continua sendo voraz e com ele coisas inimagináveis vão acontecendo, me relaciono com uma pessoa mais jovem, eu a conheci desde que tinha quinze anos e eu vinte três, quando nos reencontramos, ela já era mais velha e eu também , claro, foi tudo muito rápido, aceleramos coisas que talvez não fossem necessárias, poderia dar certo? Sim, talvez, não sei. Acredito sim que aceleramos rápido demais, mas uma certeza eu tenho, foi bom tê-la ao meu lado e não esquecerei seu All-Star, ela foi, é e sempre será digna, arquitetando vidas novas para pessoas edificantes como ela é. Sou uma pessoa mais completa por ter vivido o que vivi com ela.
Alguns reencontros parecem serem inevitáveis , hoje é isso que ocorre, um reencontro, o vermelho continua a pulsar, os óculos mudaram, a idade se faz presente através da maturidade alcançada, as dúvidas existem por parte dela, me resta compreender e entender, em certos momentos eu canso é verdade , ela solta alguns verbos interessantes, embora sempre peça desculpas antecipadamente , a dúvida se torna estressante, não posso omitir, mas ela nunca mentiu sobre isso, mas por outro lado viver na incerteza é sempre conflitante ao coração, você não sabe se é real ou não. Sei que minha condição financeira pesa em qualquer decisão, isso é fato não dá pra esconder, não dá base sólida para uma relação. A responsabilidade dela é muito grande, incluir uma pessoa nova em sua vida é uma atitude enorme e que deve ser pensada por um bom tempo. Estou feliz por estar com ela, embora não sei mesmo se ela sente o mesmo, talvez, mas com receios, com medos, cabe a mim apenas entender, sinto constantemente sua falta, sua ausência, falta de seus abraços e olhares, me sinto perdido às vezes, tamanha indecisão, mas como digo: keep walking, sempre caminhando e acreditando que o melhor acontecerá.
Eu a admiro demais, não canso de dizer isso e sempre irei admirá-la .
Tenho que reconhecer uma coisa, sorte existe, sou agraciado por ter a presença de uma mulher batalhadora , sublime e maravilhosa na minha vida. Ela sabe o que sinto, embora não permita que eu diga, palavras que digo aqui e que serão levadas pelo eco.
Este eco se foi, nada mudou em minha vida, valores permanecem intactos, a crença num AMOR maior ainda continua, nunca desistirei de tal sentimento e como um peregrino, não sei quanto caminharei até encontrar meu porto seguro, mas sei que quando encontrar, tal peregrinação não será mais necessária, pois meu coração estará dando o seu melhor para a mulher que ele serenamente escolher...
Domingo 12 de julho de 2009 , 5:25 minutos.