quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

A MAIS BELA DE TODAS AS ROSAS.


Olhei para o céu, fazia isso habitualmente, buscando paz, respostas, conforto, entendimento, mas nesse dia não obtive nada do que procurava, lágrimas correram em minha face como nunca havia ocorrido.
Mas não havia outro jeito, tinha que dar continuidade a minha vida, as mesmas coisas de sempre, trabalho, curso, casa, cuidar dos cães, que estranhamente agiam como eu as vezes, olhando para o céu, buscando uma resposta, uma motivação, mas para eles assim como pra mim, nada ajudava.
Em um dia como qualquer outro, pois todos eram assim desde então, não consegui dormir, a noite havia sido péssima, levantei da cama antes do alarme soar, fui lavar meu rosto, pra melhorar um pouco a minha expressão, o que não ajudou muito, meus olhos deixavam claro uma noite mal dormida.
Fui tomar café, que há tempos não tinha o mesmo sabor, o mesmo prazer em sentar a mesa e aproveitar as manhãs, o sol nascer, não era como antes, tudo era apenas automático, fazer apenas por fazer. O Billy e a Meg – os cães- olhavam pra mim, tentando ajudar, mas  não tinham culpa, não conseguiam, confesso que se não fosse por causa deles eu teria largado tudo, mas  eram minha responsabilidade e acompanharam-me em todo processo de dor e felicidade, mereciam meu melhor, era o mínimo que podia fazer após tudo que passamos, eles me ensinavam todos os dias o que era fidelidade, companheirismo e amizade. Cuidei deles como todo dia, ração, água, levar pra dar uma volta, eles sabiam que faltava alguma coisa, digamos que nossos olhares já eram suficientes para entendermos as coisas e  nos comunicarmos como nunca.
Voltamos pra casa, agora eu tinha que dar prosseguimento ao dia, fui tomar banho, e as recordações voltavam, as lágrimas surgiram novamente e se misturaram com a água do chuveiro, como se tudo fosse uma coisa só. Não era a primeira vez que acontecia, mas eu deixava rolar, aprendi ser o melhor a fazer, me enxuguei, me vesti, olhei no espelho e o que vi não era uma imagem lá das melhores, mudei muito depois de tudo que aconteceu, relaxei um pouco.
A coisa mais difícil era abrir a porta, sair pra trabalhar, enfim, em outras palavras, viver ficou mais complicado, olhei de novo para o céu, suspirei e dei o primeiro passo em direção ao carro, liguei, saí da garagem e fui ao trabalho.
Foi um dia estressante, todos olhavam e percebiam que eu não sorria como antes, não conversava como antes, não era mais o mesmo, o pior é que eu sabia, nas reuniões, não atuava com o mesmo empenho, a mesma dedicação, minha criatividade não era a mesma, para trabalhar com publicidade ela era essencial.
Chegada a hora do almoço, comer sozinho, terrível, afinal depois de tanto tempo tive que me readaptar, sempre ficava com o olhar perdido, olhando o horizonte, conseguia sentir minha respiração, em cada mastigar, pensava em tudo que aconteceu, quais foram os erros, acertos, deslizes, tudo.
Não entendia muito as coisas, o motivo de tudo, mais um almoço sozinho chegara ao fim, o pessoal do restaurante já habituado comigo, sentiam que eu não estava mais do mesmo jeito, até o apetite havia mudado. Voltei para a agência, tinha reunião com os clientes, mostrava  ideias, os conceitos, as estratégias, planos de ação e em quais mercados iríamos atuar, tudo conforme as regras do jogo, mas quando acabou a reunião, tudo voltava a ser como antes...
Chegava a hora de voltar pra casa, meus pensamentos só me remetiam a lembranças do passado, entrei no carro e dirigi, não pensei em qual caminho seguir, apenas fui, meus pensamentos estavam distantes, novamente perdidos. Mesmo assim seguia o caminho, parei o carro no farol vermelho, tudo estava vermelho, como se tivesse algo dizendo PARE, pare de pensar assim, agir assim, sei lá, não tenho muitas palavras para explicar, mas parei.
Foi nesse instante que me deparei com o local onde estava, o local que a encontrei pela primeira vez, todas as lembranças voltaram como se fossem meu presente, meu agora, olhei tudo e nada mudou, a beleza da rua, das lojas e da floricultura que tanto gostava de ir, o ambiente das flores me trazia paz. Decidi então estacionar o carro e ir à floricultura, foi fácil encontrar uma vaga, fato raro.
Entrei na floricultura, o perfume no ar, o frescor, tudo sempre agradável, fui caminhando entre as flores até o momento que me deparei com as rosas, sempre as rosas, me lembrei da mulher que eu tanto amei e que por certos instantes quando juntos, esquecia de dar a atenção que ela tanto merecia, as lágrimas voltaram a minha face, chorei muito, ela havia partido, deixando apenas um bilhete com os seguintes dizeres:
 “Gostaria que você desse a mim a mesma atenção que você dá ao seu trabalho, sempre te amarei, mas queria o homem que me apaixonei de volta.”
Aquelas poucas palavras nunca saíram da minha mente, ela só queria meu amor, e eu só pensava em trabalhar pra dar a ela todo conforto que um homem pode proporcionar a uma mulher, mas me esqueci do mais importante, o essencial em qualquer relação, o AMOR, ela não pedia nada além disso, apenas e unicamente meu amor.
Aquelas lindas e maravilhosas rosas me lembraram de tudo isso, decidi comprar e comecei a  procurar aquela que seria a mais linda. Foi aí que escutei a tilintar dos sinos que soavam quando alguém entrava na floricultura, para minha surpresa, era ela, fiquei sem reação, estava entre as rosas, mas a mais linda  de todas acabara de entrar, continuava tão bela e exuberante quanto antes, já se passaram cinco anos, ela estava radiante, deslumbrante, seu esplendor era fascinante.
Passei as mãos em meu rosto, como se fosse pra confirmar aquilo que meus olhos estavam vendo, e a imagem não mudou, era ela. Eu olhei, um único olhar, marejado entre as lágrimas que de saudade imensa começavam a surgir, mas estava paralisado, petrificado, ela fez o mesmo, olhou pra mim, um único olhar, doce, suave, brilhante como só ela tinha.
Queria dizer tantas coisas, pedir perdão, mas estava paralisado, venho até mim, ficou parada em minha frente, a única coisa que consegui fazer naquele momento foi pegar uma rosa e oferecer a ela, mas ela recusou.
Olhou fixamente em meus olhos, como quem vê as profundezas da alma de uma pessoa e num ato inesperado me beijou tão fortemente, me abraçou, uma sensação louca tomou conta dela, nunca havia feito isso nos nossos quinze anos de relação, me beijava, beijava, me abraçava, aquilo me pacificou tanto, me libertou de uma prisão sem grades, de forma conjunta falávamos sem parar, como se um quisesse se desculpar mais que o outro...
Apenas sei dizer que no findar daquele dia, que começou como um dia qualquer, passou a ser um dia especial e inesquecível em nossas vidas, nos reconciliamos e uma nova história começaria, minhas atitudes foram outras, não a deixaria partir novamente.
Desde então uma nova luz voltou a minha vida, uma nova e meteórica luz, todas as coisas voltaram a ser mais prazerosas, alegres, Billy e Meg voltaram a abanar seus rabos como antes e voltaram a bagunçar a cama de novo, pra minha “enorme” felicidade em ter que arrumar a cama três vezes pela manhã, mas agora essa bagunça não importava mais, tudo estava completo.
As flores passaram a ter uma importância em nossa vida, tornara ela mais leve, mais bela, mais sublime, dentre todas, as rosas passaram ao primeiro lugar no pódio de nosso amor, chegava em casa sempre com uma a oferta-la, e ela sempre e igualmente fingia recusar e me beijava tão apertado e amorosamente, que todo dia eu saía de casa sempre pensando na volta.
Um olhar, um beijo entre as rosas, um dia inesquecível...
Adormecer e despertar com uma rosa, ela não era só uma flor, mas com certeza o meu jardim completo e eu aprendi a cuidar desse jardim dia-a-dia.
Eu percebi que essa rosa era especial, pois não havia espinho nenhum, com o passar dos anos, comprei uma casa no campo e fiz questão de fazer um roseiral só pra ela e ela continuou sendo até o fim de meus dias a rosa mais bela de todas.